Ensaio sobre a relação do corpo com o espírito, de Henri Bergson
Capítulo
1 – DA SELEÇÃO DAS IMAGENS PARA A REPRESENTAÇÃO. O PAPEL DO CORPO
Bergson trabalha, a meu ver, dentro dos
moldes do método cartesiano, por abstração. Só que ao invés de realizar a
abstração dos dados sensíveis, procura abstrair-se das teorias da matéria e das
teorias do espírito, da realidade e da idealidade, deixando em sua presença
apenas as imagens, mesmo que ainda
vagas, percebidas pelos sentidos quando estão abertos. Ou seja, ele não elimina
os dados sensíveis, pelo contrário, coloca-os em estado de alerta.
Percebe que todas as imagens agem e reagem
umas sobre as outras e que o corpo
fornece imagens particulares e novas.
Passa em seguida a observar as outras
pessoas e vê que seus corpos são movimentados por estímulos transmitidos aos
centros nervosos. Donde conclui que o mundo material é amplo e que contém em si
muita coisa, inclusive o cérebro. Ele diz que o cérebro é uma parte da imagem e
não o criador da imagem. Donde percebe que, se desaparecessem o cérebro e o seu
estímulo, muita pouca coisa se alteraria no quadro do mundo. Mas Bergson não
entra aqui na consideração cartesiana do “deus enganador” e da possibilidade de
estarmos sendo “enganados pelos sentidos”. Apenas considera que o mundo
continuaria existindo, mesmo sem o cérebro e seus estímulos.
Voltando ao cérebro, ele percebe que este
reage às imagens do mundo exterior recebendo e transmitindo movimento, como se
fosse um centro de ação, desprovido da capacidade de criar uma representação. “Os objetos que cercam o meu corpo refletem a
ação possível de meu corpo sobre eles.”
Agora Bergson sugere uma cirurgia que corte
alguns feixes de fibras de um sistema cerebral e afirma que o mundo
permaneceria inalterado com aquela ação e mesmo o resto daquele próprio corpo
que sofreu a cirurgia. Apenas o que mudaria seria a percepção daquele ser em
relação a matéria, ou seja, a capacidade do cérebro em reagir ao conjunto das
imagens e a percepção da matéria a essas imagens.
Considera que a percepção é função desses
movimentos moleculares, que ela depende deles e que, portanto, esta percepção é
constantemente alterada.
Passa em seguida a considerar as imagens
particulares e a representação delas, buscando refletir sobre a sua
co-existência em dois sistemas diferentes.
Rebate em seguida o postulado de que “a percepção tem um interesse inteiramente
especulativo: ela é conhecimento puro”, colocando que o exame da estrutura
do sistema nervoso desmente essa
teoria.
(Parte 1) - continua...
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